A popularização do diagnóstico de TDAH reflete um sofrimento autêntico, mas aponta para uma tendência contemporânea perigosa: a de medicalizar como falha neurológica individual o que, muitas vezes, é a resposta direta de um organismo sobrecarregado pelas engrenagens socioeconômicas do nosso tempo.
Receber um diagnóstico psiquiátrico rápido traz um conforto compreensível – alivia a culpa moral de se sentir preguiçoso ou incapaz e oferece na medicação a promessa de uma ferramenta para "voltar a funcionar" e continuar consumindo. O problema ético começa quando a pílula vira uma prótese para tolerar a própria exploração, silenciando a pergunta incômoda sobre o que exatamente aquela rotina está custando à sua vida e aos seus desejos.
Desatenção ou desinteresse disfarçado?
A psicanálise nos lembra de que prestar atenção exige investir energia psíquica e afetiva em algo. Muitas vezes, a chamada "falta de foco" nada mais é do que o inconsciente decretando greve contra tarefas esvaziadas de sentido, carreiras que adoecem ou rotinas que anulam a singularidade do sujeito. É difícil se concentrar quando a própria vida perdeu o sabor da implicação pessoal.
A clínica não nega que existam quadros clínicos graves e atípicos de desenvolvimento infantil que demandam intervenções médicas cuidadosas. O trabalho, contudo, recusa o automatismo de transformar qualquer inquietação, tédio, angústia ou cansaço adulto em um distúrbio psiquiátrico a ser quimicamente silenciado.